As cianobactérias e o potencial ecológico das albufeiras do Rio Arade

Autores: Margarida P. Reis (Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade do Algarve), Sandra Caetano (CIMA, Escola Superior de Saúde, Universidade do Algarve, AquaExam, Lda – Gestão Integrada e Diagnóstico Ambiental), Cristina Costa (CIMA, AquaExam, Lda) e Conceição Gago (Agência Portuguesa do Ambiente, I. P. – ARH Algarve)

Resumo:

As albufeiras do Arade (AA) e do Funcho (AF) resultaram do represamento das águas do rio Arade por barragens sucessivas, que foram construídas em épocas diferentes e, para as quais, se propuseram inicialmente também objectivos diferentes. AA destinava-se a armazenamento de água para rega, enquanto a água armazenada em AF se destinava sobretudo à produção de água para consumo humano, tendo sido, até à entrada em funcionamento da barragem de Odelouca, esta a principal origem de água para consumo da população do Barlavento Algarvio. AA e AF acabaram por constituir um sistema único, de cuja gestão integrada dependem múltiplas actividades na bacia do Arade, com realce para a agricultura de regadio. No âmbito da implementação da Directiva Quadro da Água, estas albufeiras foram objecto de uma caracterização de pormenor, que incluiu variáveis biológicas a partir do ano 2001 para AF e desde 2009 para AA. Os resultados destes estudos, realizados em cooperação com a empresa Águas do Algarve, S.A., permitiram avaliar, com base nos dados da composição e abundância do fitoplâncton, o potencial ecológico como sendo BOM em ambas as albufeiras e com valores que se aproximam, em vários anos, do EXCELENTE. Esta classificação não permite, no entanto, aligeirar o esforço de monitorização, já que o fitoplâncton no verão foi sempre maioritariamente composto por espécies de cianobactérias, microalgas que podem em condições adequadas produzir toxinas. De facto, detectaram-se sistematicamente no verão, em AA florescências de cianobactérias com densidades acima das 104 células por mililitro, ora dominadas por Microcystis spp., ora por Aphanizomenon spp., ora por Anabaena sp., mas sem registo de qualquer evento de toxicidade. AF tem também sido dominada por cianobactérias durante o final do verão e outono, nos últimos quinze anos, tendo excedido em 2001, 2002 e 2005 o nível de alerta 2 da Organização Mundial de Saúde (> 105 células de cianobactérias por ml), com florescências de Microcystis spp.